Próximo andar: a Lua

Foto por Pixabay em Pexels.com

Quando o elevador parou, com o botão do dez piscando e a porta, que deveria se abrir, fechada, eu fiz o que acho que todo mundo faz quando um elevador apresenta problema: apertei o botão. Como nada aconteceu, apertei outro botão, e outro, mais outro, e todos, mas nada aconteceu novamente. Peguei aquele telefone de elevador que a gente deseja nunca usar, e ele simplesmente não dava linha, totalmente mudo. Já bem nervoso, chacoalhei o aparelho, dei-lhe umas pancadas…tudo em vão.

“O porteiro, eu tenho o contato do porteiro no celular”, pensei, digitando logo em seguida uma mensagem que não foi, pois não havia sinal.

Nada funcionava naquele elevador, e eu fiquei totalmente desesperado:

– Ei! Alguém aí? eu dava soco na porta do elevador, alguém aí? Socorro!!

E como se o “socorro” fosse um “Abre-te sésamo”, a porta do elevador se abriu. Só que não no meu décimo andar, e sim na Lua.

Não hesitei em sair do sufoco daquela cabine e pisar com meu chinelo de dedo no solo lunar. Deixei ali minhas pegadas e só não fotografei porque meu celular não funcionava. Caminhei bastante, explorando com meus olhos extasiados aquele espaço.

Que emoção! Estou na Lua! Que maravilha mais espetacular! Realização de um sonho! (Sério!? Nem eu sabia que esse era um sonho meu).

Quanta cratera!

Não tem praia na Lua? É sempre esse cinza sisudo aqui?

E não demorou muito para tanto entusiasmo dar lugar ao tédio.

A lua é bem mais bonita e interessante na Terra, mais romântica e poética, brilha e muda de formas, faz aquele caminho bonito no mar nas noites em que está cheia ( imagem belíssima que os suecos chamam de mangata). Aqui ela é muito monocórdia e monocromática, deserta, triste, sem sal.

Decidi voltar para o elevador, que, se tinha me levado até lá, teria que me devolver para o décimo andar. Tudo que sobe, desce.

No meio desse caminho, ouvi um “olá”. Achei estranhíssimo; teria mais alguém aqui na Lua? E que fala português? Olhei ao meu redor e não tinha ninguém. “Será que estou ouvindo vozes? Que estranho!”

— Tudo bem com você? perguntou a mesma voz.

— Quem está aí?

— Sou eu, um selenita. Muito prazer.

— Um sele o quê ?

— Selenita, um habitante da Lua.

Eu ri, dizendo que não existia vida na Lua, que o homem já tinha pisado nela, dado um gigante passo para ele, mas pequeno para a Humanidade (ou seria o contrário? Eu sou péssimo em citar versos, frases e provérbios populares, sempre erro), e que só encontraram lá, sei lá, pedra e poeira, e fincaram uma bandeira dos EUA…

O selenita me interrompeu, dizendo que sabia de tudo isso, que todos ali lembram bem dos homens que chegaram numa carroça rudimentar com uma bandeira listrada e estrelada, que quando esses homens estiveram lá só viram o que a mente humana permite — e a mente humana é muitíssimo limitada, disse o selenita, com zero de arrogância, mas franqueza absoluta. Nem mesmo os equipamentos que aumentam a visão humana, e que os terráqueos julgam eficientes e de ponta, podem mostrar os habitantes da Lua, mas eles eram muitos, a Lua é um lugar repleto de vida.

Perguntei se eles eram seres microscópicos, tipo ameba, vírus, bactérias…

— Não, nós somos seres gigantes, imensos. Vocês terráqueos que são como ameba, vírus e bactérias para nós.

Eu ia fazer mais alguma pergunta para o selenita, mas ele foi mais rápido:

— Olha, você tem pouco tempo aqui. Sugiro que aproveite essa viagem em vez de tentar compreender o que você jamais compreenderá.

Eu aquiesci.

— O que você carrega com você, terráqueo?

Era uma sacolinha com o café que eu tinha acabado de comprar, antes de entrar no elevador e ir para na Lua.

-Hum, café! Vamos fazer um.

-Como assim, selenita? Para fazer café nós precisamos de utensílios.

— Temos todos.

— Como assim vocês….

— Sem perguntas. Olhe para trás.

E quando olhei, lá estavam um bule de prata, duas xícaras de porcelana chinesa de tempos imemoriais, um coador de café das Minas Gerais, e uma leiteira de alumínio de uma loja de produtos para o lar.

— Tem água na Lua? Vamos precisar de…

— Eu sei, disse o selenita, vamos para Marte, a melhor água desse Universo está lá.

Nesse momento, uma espécie de tapete voador, que lembrava uma finíssima plaquinha de gelo, apareceu. Subimos nela, e partimos em direção a Marte.

Tudo é vermelho em marte, inclusive o mar, vermelho mesmo , de verdade, não só no nome, como o da Terra. A placa voadora do selenita deslizava feito uma prancha no marciano mar sem ondas e com a leiteira eu peguei a água para nosso café.

Alçamos voo novamente e chegamos em rápida velocidade a Vênus, onde pude ouvir o barulho fervente dos vulcões fumegantes. Procuramos um bem pequenininho, com uma boquinha menor que a menor boca do meu fogão, e ali esquentei a água.

— Pode ir passando o café, mas vamos tomar num lugar bem legal, disse o selenita, nos levando para Saturno, onde nos sentamos nos grandiosos anéis com as pernas suspensas no cosmo, tomando o melhor café do mundo, do mundo, não, do Universo, ao som das estrelas.

—Tem vida em Marte, selê?

—Sim.

— Em Vênus?

—Também.

— São gigantes também?

— Em Marte, sim. Em Vênus, não.

— E você brigam?

— Por que brigaríamos?

— Ah, sei lá…vocês selenitas não gostariam de ser os donos das águas de Marte?

— Não.

— Nem dos vulcões de Vênus?

— Não.

— Nem dos anéis de Saturno? Eles são tão lindos, você não acha?

— Sim, são lindos, mas são de Saturno.

—Vocês nunca brigam? Não tem guerra aqui nas estrelas? Nos filmes e livros sobre vocês sempre tem alguma confusão, conflito, treta…

— É porque os humanos nos representam à imagem e semelhança deles. Nada disso faz parte da nossa natureza.

E depois dessa fala, um silêncio cósmico e universal se fez, e foi quebrado, pelo selenita, só quando o café acabou.

— Seu tempo aqui está acabando. Vamos dar mais uma volta.

Fomos longe. Saímos da Via Láctea, fomos para outra galáxia, e depois outra, tantas. Passamos por milhares e milhares de sóis, sobrevoamos outros milhares e milhares de planetas, alguns redondos, outros quadrados, retangulares, triangulares. Havia planetas com formas tão estranhas que não me é possível nenhuma analogia com algo da Terra. Pousamos em um que era habitado por dinossauros, e numa das galáxias que visitamos, dragões soltando fogo voavam de um lado para o outro. Na volta para a Lua, passamos pelo B 612, mas o pequeno príncipe não estava lá, apenas a flor e os vulcõezinhos.

Chegamos à Lua.

— Sua nave te espera, disse o selenita, referindo-se ao elevador.

— Eu queria levar uma lembrança da Lua, selê.

— Pode levar um pedaço do nosso solo.

Fiz uma concha com uma das mãos e tirei um naco da Lua, deixando ali uma nova cratera.

— Hora de partir, disse o selenita, e eu senti que ele não estava mais ali. Deve ser desses que não gostam de despedidas.

Apertei o dez e em pouco tempo estava em casa. Como não desgrudei da minha sacolinha com café, passei um assim que cheguei. Fiquei curioso com aquele pedaço de lua e o cheirei.

“Não, não é possível”, e mordi, “sim, é possível. Queijo! A lua é mesmo de queijo!”

Fui para a sacada, era comecinho de noite de lua cheia, redonda e linda. Fiquei ali tomando meu café e sentindo o gosto e a falta da Lua. Deu saudade do selenita.

Onde ele estará agora? Será que entrou no elevador e está aqui na sala? Não, ele era gigante e não caberia no elevador. Se bem que a lógica selenita é diferente da lógica humana, então mesmo sendo um gigante ele pode ter entrado e estar aqui na sala. Não, o selenita demonstrou não ter interesse pela Terra. Parece que os venusianos e marcianos também não têm. Ele continua por lá, gigante e invisível, pelo menos para nós, no mundo da lua, viajando pelas galáxias, vez ou outra passando pela Terra para buscar um utensílio ou outro.

— Boa noite, selê.

A lua realmente é muito mais bonita na Terra.

Fim

Eduardo Barbosa

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