Bolo de fubá com goiabada

Uma crônica-receita

Foto por Estudio Gourmet em Pexels.com

Antes de mais nada, e é muito importante frisar, essa é uma crônica-receita. Se não funcionar como receita, a culpa é da crônica, e se o seu bolo não crescer, culpe o forno: “desregulado” é uma boa desculpa. Sugiro, e é apenas uma sugestão, que você leia esse texto com um caderninho de receitas, ou o equivalente digital dele, ao lado. Boa leitura e bom bolo.

  1. Conversa fiada (ingrediente importante em qualquer cozinha)

Mas antes uma anedota verdadeira para justificar algo que acontecerá aqui. Esses dias minha mãe me mandou uma mensagem, por áudio, que se iniciava assim ” Peguei um receita de sopa…”. Achei muito estranho, minha mãe não é mulher de receita, nem gosta de cozinhar, e quando cozinha é sempre no olho e de forma prática. E então ela completou, “mas desisti dela, muita coisa, e fiz do meu jeito”, estabelecendo assim normalidade da realidade.

Puxei minha mãe em muitas coisas, mas não nisso. Costumo seguir receita com rigor, principalmente de doce, pois a confeitaria é extremamente exata. Podemos, claro, mexer numa coisa ali, noutra aqui, mas as bases são exatas, pelo que sei. Aqui, quase tudo será medido e pesado. Na verdade, pesado.

2. Mise en place.

Cozinha é organização. Pegue seus potinhos, tire do armário a batedeira, tem fouet?: que ótimo! mas se não tiver uma colher grande, de pau ou do tipo, também serve.

E uma balancinha (assim mesmo: num parágrafo só para ela).

Se tem investimento que vale a pena numa cozinha é a balancinha. Não reclame, eu disse que seria tudo, quase tudo, pesado. Caso não tenha a balancinha, não desista. Anote a receita e depois vá até o Google e veja algum site que transforme gramas em copos americanos, colheres diversas, xícaras de chá e sei lá mais o quê.

Mas compre a balancinha (mais um parágrafo só para ela).

Agora vamos lá:

250 gramas de fubá;

100 gramas de manteiga sem sal;

270 gramas de açúcar;

250 gramas de ovos (aqui seria sacanagem não dizer que são 5 ovos. Uma vez eu pesei, e cada ovo tem aproximadamente 50 gramas – o extragrande, acho);

330 gramas de leite (gramas mesmo, pese o leite);

20 gramas de fermento químico;

80 gramas de farinha de trigo;

Goiabada a gosto, em cubos.

A receita original é isso, mas acontece que eu queria sentir um cheirinho de erva-doce, e então coloquei um pouco: uma colher de sopa rasa, mas esse lance de raso e cheio é bem relativo.

E não sei se é por ter lido esses dias os “Poemas Escritos na Índia” da Cecília Meireles ou por causa do frio que está fazendo aqui, não sei se foi por isto ou por aquilo, mas deu uma vontade de canela, e eu adicionei aos exatos 80 gramas de farinha 2 colherinhas de canela, acho que é de café aquela colherinha, eu sempre confundo, por isso gosto da balancinha.

Maravilha! Que mesa linda. tudo separadinho. Hora de misturar.

3. Preparação

Não é um bolo de liquidificador, e tudo começa numa panela no fogo onde você irá juntar o açúcar, o leite, a manteiga e a erva doce. Dá uma mexida aí e deixa ferver. 13 graus Celsius aqui em Campinas nessa noite, então eu tratei de ficar em cima dessa panela, sentindo esse calor delicioso com cheiro de erva-doce. E que bom que eu coloquei erva-doce, na verdade foi por isso que eu coloquei, mais pelo cheiro do que pelo gosto.

Quando ferver, despeje sem dó nem piedade o fubá, e mexa sem parar até atingir um ponto de gororoba. Não sei se existe esse ponto num livro de culinária, mas você vai entender quando atingir. É uma espécie de massa ou pasta que desgruda da panela.

Gororoba atingida, batedeira. Eu tenho uma planetária brancona Arno do meu coração, minha DeLorean , meu Coração do oceano, e nela eu despejo a gororoba na velocidade 3.

Não se assuste. Vai sair tanta fumaça de dentro da cuba que parece até os motores dos carros velhos que eu tive, mas é normal. A gororoba tem que esfriar, porque se você colocar os ovos com ela quente, teremos ovo frito, e não um bolo de fubá fofinho. Nada contra o ovo frito, mas não é a vez dele agora.

“Ah, mas vai demorar muito”. Nem demora tanto assim, e na cozinha temos que ter paciência, igual na vida. Fica aí olhando a batedeira jogando a massa de fubá para lá e para cá, igual a vida faz com a gente de vez em quando, nos enchendo de bordoada, nos deixando sem rumo… opa, pode parar. Nada de lágrimas sobre o fubá. Não sou uma pessoa mística, mas tristeza e cozinha não combinam. Já viu ou leu “Como Água para chocolate”? Pois é.

Se bater alguma tristeza enquanto aguarda a gororoba esfriar, dance ao som da batedeira, é lindo!; coloque uma música, aqui tocava Diamonds da Rhianna, ou arrume algo para fazer.

Já esfarinhou a goiabada? Não , né. Era para ter feito lá no mise en place. Esfarinhe para evitar a ida dos cubos para o fundo do bolo.

Já untou a forma? Haha sabia. Então unte. Já pensou se o seu bolo maravilhoso não sai da forma?

Seu forno tá pré -aquecido? 180 graus Celsius, por favor. Obrigado.

Viu só, a gororoba de fubá esfriou enquanto você foi cuidar da vida e agora sim coloque os ovos aos poucos e deixe a batedeira trabalhar misturando tudo.

O meu caderno de receita fala que eu posso adicionar a farinha e fermento na velocidade 1 da batedeira planetária, mas isso é muito difícil para mim. Eu preciso usar um fouet na preparação de um bolo. Desligo a batedeira, pego a cuba, despejo a farinha e mexo , depois o fermento e mexo, embalando a preparação nos braços. É meu momento favorito. Mas se você não tem disso, pode bater na batedeira, em velocidade baixa.

Esse bolo, você vai ver , é consistente, não é um pão de ló, não precisa de tanta delicadeza.

Uma coisa importante: você ainda não colocou a goiaba. Se não fizer isso não vai ser o bolo com o nome que tem. Coloque.

Despeje a massa na forma, forma com um buraco no meio, tem que ser essa, bolo de fubá que se preze tem que ser na forma de buraco no meio, se não for nela parece que o sabor do fubá foge (mas se você não tiver tudo bem, dessa vez passa, e compra uma amanhã).

Como a massa é firme, eu coloco uns pedaços de goiabada sobre ela, nem precisa esfarinhar, geralmente esses pedaços não descem para o interior do bolo, mas não garanto.

3. Forno

Já está pré-aquecido, você coloque lá e não abra antes do tempo. A partir de uns 35, 40minutos você pode abrir, mas não exagere. Abra, veja e feche, caso ele precise de mais tempo ( quase certeza que vai precisar) . O tempo varia muito de forno para forno, mas um bolo desse assa entre 45 e 60 minutos. Aí é com seu forno.

Enquanto isso arrume o que fazer também . Olha essa pia aí que maravilha! A realidade da louça acaba com a poesia da confeitaria, né?. Acontece.

Eu estaria lavando louça enquanto o meu assa, mas vim aqui escrever essa crônica. Agora preciso voltar para a cozinha porque já está quase pronto. Texto e bolo saindo, um da cabeça, outro do forno.

Volto daqui a pouco para escrever a última parte: Degustação

4. Degustação

Fazia tempo que eu não fazia esse bolo, não lembrava que ele crescia tanto. Surpresa boa, e melhor ainda porque não escorreu da forma, não se esparramou no meu forno. Ah, essas pequenas alegrias culinárias!

Deixei esfriar e desenformei. A faca fez aquele corte fofo, o café aguardava ansioso. As goiabadas não foram para o fundo do bolo, sempre tenho medo disso, mesmo com os cubos devidamente esfarinhados.

Nhac!

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Fim

Eduardo Barbosa

Fotos de Eduardo Barbosa, do arquivo pessoal, do bolo desse texto:

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